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terça-feira, 13 de abril de 2010

Cartilha pós-moderna do redator de insultos




Este é o título do meu próximo livro, caso eu venha a publicá-lo.
Enjoy.

ps: Não corrigi. Quero que se foda.

A palavra escrita é algo realmente fascinante no que concerne às suas inúmeras possibilidades no campo do insulto. Bem verdade que a palavra falada lhe dá a indiscutível vantagem de dificultar um processo por parte do insultado. Mas viver um pouco perigosamente tem o seu encanto.

E, além do mais, eu ainda sou do tempo em que o guasca assinava embaixo da opinião que emitia e não ficava a escorregar como falo de travesti em bunda de empresário dono de camionete com vidro peliculado.

Também quero deixar muito claro que há de se respeitar um código de ética quanto à publicação de palavras com cunho ofensivo a outrem. Jamais, eu disse jamais!! Devemos afirmar qualquer coisa que seja de maneira insistente. Jamais!

E nem tampouco apelar pra meias medidas: se nos rebaixamos a redigir um período com o intuito de agredir, devemos AGREDIR! É como no futebol: se for pra ser expulso, leve a carreira do patife junto consigo!!



Sem dó, como nas atuações do profissional liberal citado no primeiro parágrafo.



Obviamente não posso esperar de cada cidadão uma boa formação no campo textual do insulto. As professoras de redação passam a faculdade de Letras inteira em devaneios com vibradores e não têm capacidade nem espírito para ensinar algo de útil para a gurizada (professoras, menos pó e mais empenho, sim?). Mas calma, com este artigo você não ganha somente entretenimento e uma certeza de tempo mal-aplicado. Não. Você ganha a:



CARTILHA PÓS-MODERNA DO REDATOR DE INSULTOS



1 – Nunca redigir insultos contra cegos e/ou analfabetos, pois alguém terá de ler para eles o que anulará o impacto que somente a leitura proporciona



2 – Criar uma árvore genealógica falaciosa que o coloca como descendente direto do pior exemplo possível de ancestral daquela etnia/credo (ex: alemão: Hitler, italiano: Mussolini; judeu: Henry Sobel ladrão de gravatas; espanhol: Generalíssimo Franco; católico: Judas, etc) ressaltando MUITAS vezes durante a dissertação a inexorabilidade do atavismo nas ações daquele...



3 – Comparar a sociedade com um zoológico e sempre pontuá-lo na metáfora como algum animal de chifres ou com o próprio cuco.



4 – Basear todos os impropérios em sofismas absurdamente irritantes, porém convincentes.



5 – Terminar um parágrafo, sempre que possível, com alguma frase hipócrita. Ex: “no fundo eu sinto pena dele” ou “só falo isso para o bem dele”



6 – Ridicularizar o que ele faz (ou pensa fazer) de melhor



7 – Insinuar que os filhos dele na verdade são de outro



8 – Usar as palavras “COITADO”, “IMPOTENTE” e “FRACO” sempre que possível



9 – Lançar perguntas absurdas ao insultado, durante o texto. Ex: você se lembra na casa de quem a polícia encontrou duas menores de idade seminuas enquanto a mulher do dono da casa viajava?



10 – Fazer alusões extremamente diretas e debochadas sobre fatores de humilhação. Ex: chifre levado, emprego perdido, surra levada etc



É importante lembrar, ainda, que apesar de esta cartilha ser muito abrangente, nós, que temos o português como língua-mãe, ganhamos a vantagem de estarmos sob a jurisdição, por assim dizer, de uma língua altamente rica em vocabulário, possibilidades de adjetivação, sinônimos e a porra toda, portanto, mãos a obra, galera. Pois se temos uma línguagem tão complexa, por que diabos iríamos querer utilizá-la em amenidades?



Acho válido, a visar a instrução correta dos novos redatores de insultos, que publiquemos nesta cartilha um exemplo, para que o iniciante (ou o já iniciado que pretenda especializar-se) possa guiar-se em um modelo.



Exemplo:



Fatores de motivação:



Você é um jovem criativo, com muita energia e que pretende montar uma banda.

Apesar de morar num edifício, resolve investir todas as suas economias na isolação acústica de uma peça, transformando-a num pequeno estúdio para ensaios.

Para evitar problemas com os vizinhos, além de observar as normas municipais concernentes à perturbação sonora em edificações urbanas (aquela coisa de decibéis), ainda encerra as atividades uma hora antes do limite estabelecido por lei.

Seu ótimo relacionamento com os vizinhos é exemplar. Todos gostam de você e todos odeiam seu vizinho de cima. Mesmo assim você trata até ele bem. Você é um cara legal e educado.

Nenhum vizinho reclama do barulho, a não ser o seu vizinho de cima, que alega coisas como: “quando eu encosto o ouvido na parede da área de serviço, sinto a vibração do contra-baixo”. Você é tranqüilo, mas seu vizinho vai minando sua paciência.

Certo Sábado, 16:00, seu ensaio é interrompido por uma súbita falta de luz. Após esperar por 15 minutos, decide, como que a receber a informação do subconsciente, averiguar se faltou luz em outro apartamento. É claro que só faltou no seu.

A chave geral da sua residência foi desligada e testemunhas viram sem vizinho sair há 15 minutos atrás, bastante apressado.



Carta:



Senhor Vizinho:



Redijo esta carta aberta a todos os moradores deste edifício, como que um pedido de desculpas. Desculpas a eles e não a vossa senhoria, lógico.

Desde há muito sou alertado sobre sua falta de caráter, mesquinhês e burrice. Idem quanto à sua obesa e intolerável esposa, que está sempre de péssimo humor (o motivo de tal humor também é muito comentado nas cercanias).

Reitero: desculpem, amigos, por eu ter vos ignorado.

Voltando à vossa senhoria: a baixeza de suas atitudes apenas evidencia uma pessoa com sérios problemas de relacionamento, que, não satisfeito em ter a antipatia quase total dos vizinhos, resolve, sem motivo relevante, completar o álbum de inimizades nos arredores de sua habitação.

Se eu fosse baixo como o senhor, comentaria sobre os evidentes calotes que o sr. e sua estimada esposa têm passado pelo comércio da cidade (não pensa realmente que as pessoas não sabem o que são aqueles envelopes com timbres de lojas em seus nomes, ahn?)

Se eu fosse mesquinho como o senhor, cobraria, como proprietário – aliás, muito mais antigo que vocês – o pagamento de todas as mensalidades atrasadas do condomínio, alegando que, se sua mulher comesse menos, além de diminuir a aparência de hipopótamo, ainda sobraria dinheiro para honrar seus compromissos. Até porque não me agrada a idéia de ficar sustentando vagabundo e as orgias gastronômicas da elefoa que dorme ao seu lado.

Se eu fosse burro como vossa senhoria, ficaria a resmungar, impotente (esta palavra deve lhe ser bastante familiar) como é de seu costume. Não! Eu escrevo esta carta e a deixo, em muitas cópias, pelos corredores. E o pior: não posso ser processado! Tentar me bater, dadas as circunstâncias, também não é uma boa idéia.

Testemunhas a seu favor? Que falta faz agora um pouquinho de educação de sua parte para com os outros...

Mas o pior é que eu, sujeito de boa índole e bons sentimentos, ainda sinto pena de sua situação: burro, fudido na vida, casado com uma mulher que só valeria alguma coisa se fosse vendida a quilo, sem amigos, devendo na praça... quem sabe lendo algum livro do Gasparetto a sua situação não possa melhorar? Piorar é difícil.

Além disso, andei pesquisando sobre o seu nome. Engraçado. Esta família é bastante conhecida no Sul da Itália (em presídios) e no interior do estado dando pequenos golpes. Um seu tataravô enriqueceu como grileiro e seu avô desperdiçou tudo em jogo... é, vossa senhoria é uma vítima do atavismo! Não é culpa sua. A falta de caráter está no sangue.

E já que foi despedido do emprego (faz 2 meses que seu carro está sempre na rua, ou seja, você não está trabalhando) tente melhorar seu nível como profissional. Certamente você não foi demitido por ser extremamente competente no que faz, certo?

Aproveite o tempo. Carpe diem! Faça um curso (mesmo que não tenha dinheiro, sabemos que isso não é problema para o senhor) ao invés de incomodar as pessoas de bem.



Finalizo esta carta dizendo que torço muito por sua recuperação e mostrando-lhe que é possível comunicarmo-nos sem grosserias, insultos ou sobressaltos.



Att.



Maurício Alejándro Kehrwald Cruz



Topo do playlist:

The Kids Aren't Allright - Offspring
Pretty Fly (for a white guy) - Offspring
All i Want - Offspring
Everybody - Backstreet boys
Stuck with me - Green Day

9 comentários:

thiago_montemezzo disse...

a carta ao vizinho é a melhor parte de TODAS, já tinha lido ela. Fico imaginando a cara do idiota.

Erica Ferro disse...

KKKKKKKKKKK

Essa carta é a prova de que podemos insultar com classe, rs.
Muito boa, Kehrwald!

Deixa eu te perguntar uma coisa. Foi você que deixou esse comentário no post em que falava da natação?

"Mauricio disse...

Natação é sensacional. Sem dúvida o esporte de não-contato preferido.

Em tempo: tu é nadadora paraolímpica tipo o Tiago Pereira (olha eu aqui, mãe) ou tipo a Natalie Du Toit (paraolimpíada mesmo?) Pergunto porque tenho certo interesse na modalidade."

Se não foi, ignora a minha resposta.

HUASHASUSA
Eu ri do comentário, achei engraçado a parte do Tiago. Enfim, eu sou nadadora paraolímpica MESMO, inclusive a Du Toit é da minha categoria na natação (s9).
Se bem que eu acho injusta essa minha classificação, acho que eu teria de ser uma s8, mas enfim... é um assunto meio longo, que precisa ser mais detalhado. No fim das contas, eu sou s9 e estou em desvantagem com as outras s9. A minha esperança é de conseguir ir pra uma competição de nível internacional e me classificar internacionalmente e enfim, pegar um s8.
Ok, falei demais.
Ah, e fico feliz que você tenha interesse no paradesporto.

(E por fim, [Deus do céu!], me perdoe se você não for o Maurício que deixou esse comentário, rs)

Um abraço!

Marcell Schröer disse...

Aaah, o insulto... Mas ainda acho que certas coisas só se resolvem com porrada ou esfregando a genitália em objetos de uso pessoal do alvo.

Nei Paulo disse...

Kehrwald, eu rolo de rir com teus textos!

Um forte abraço!
Nei

Mauricio disse...

Obrigado meu povo, obrigado! Em breve acho que começarei a postar os textos menos publicáveis.

Estou sendo chamado pelo popular SOBRENOME. ESTOU FICANDO VELHO! E olha que estou com 19 anos!

Anônimo disse...

putz, e eu que sou chamado de FRONER desde os 11 anos?

80% dos meus amigos sequer imaginam que eu tenha um primeiro novo... ja me perguntaram "tu é Froner de que?"

Anônimo disse...

Aliás... a dá pra perceber que o comentário que a Erica postou É mauricista pela citação ao Tiago Pereira e as paraolimpiadas.

ainda acho que tu foi bonzinho falando do Tiago Pereira, UBERMENSCH da natação, de acordo com a globo.

Ana Seerig disse...

Muito bom, Kehrwald!

Vou lembrar dessa cartilha quando tiver que xingar alguém educadamente...

Se bem que um vizinho chato desses merecia um xingamento menos educado... A legítima praga da vizinhança...

Débora disse...

Mas se a carta não resolver, "chame uns nêgo bem catinguento", e se não quiser negros fedorentos no teu prédio, eu te consigo uns cabos de vassoura, daqueles bem firmes.
"Se quer banditismo, fale comigo mesmo!"